‘O Casamento da Princesa’ (2015), de Meg Cabot

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Depois de dez livros e quinze anos do lançamento da série ‘O Diário da Princesa’, a autora americana Meg Cabot veio ao Brasil ano passado para lançar ‘O Casamento da Princesa’ (2015), décimo primeiro livro da série. E, espero eu, o último. Para quem morou embaixo de uma pedra na última década, ‘O Diário da Princesa’ (2000) conta a história de Mia Thermopolis, uma adolescente de 14 anos, cheia de problemas com sua falta de peito, altura e popularidade. Mia vive com sua mãe em Nova York e de uma hora para outra, descobre que seu pai é príncipe da Genovia, um pequeno principado europeu. Daí em diante sua vida vira uma confusão completa, cheia de paparazzi e lições de princesa com a sua avó maluca Clarisse.

Eu tenho um carinho muito especial pela Meg Cabot. Os livros dela eram meus favoritos no início da minha adolescência, são muito divertidos, leves e (eu não brinco) impossíveis de ler apenas uma vez. Sobre ‘O Diário da Princesa’, somente os filmes fizeram parte da minha adolescência. Já perdi a noção de quantas vezes os assisti pela TV. Mas só vim ler os livros depois de fazer 18 anos, quando peguei a coleção emprestada com uma amiga. Levei apenas (pasmem) um mês para ler todos os dez, já que a escrita é muito fluida.

Mas é inegável que ler Meg com 18 anos não foi a mesma coisa que ler Meg aos 11 anos. Aquele drama adolescente maluco que eu tanto me identificava e dava crédito, hoje parecia uma birra de criança. A insegurança absurda da Mia o tempo inteiro passou a ficar repetitiva e entediante. Não deixam de ser livros encantadores, mas eu percebi que, um dia, eu curti muito Meg Cabot, e eu desejei que outras meninas pudessem sentir, hoje, o que eu senti oito anos atrás, e que agora não consigo mais sentir.

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Indo ao que interessa, em ‘O Casamento da Princesa’, Mia está com 26 anos e cheia de problemas. De novo. Ela recebe um pedido de casamento de seu eterno namorado Michael e sua vida vai, mais do que nunca, virar de pernas para o ar. Como sempre, sabemos de toda a história pelo diário da Mia e suas observações são divertidíssimas. Apesar da idade, ela continua a mesma: fazendo enormes estardalhaços e se preocupando demais com todos e nada com ela. Mas quando as coisas saem de controle, não fica tão divertido quanto nos outros livros.

Desde o décimo volume, acho que a Meg vem perdendo a mão quando escreve a Mia. A primeira metade de ‘O Casamento da Princesa’ é arrastado e bem sem graça. Mia passa tempo demais divagando e reclamando sobre sua avó, seu pai, paparazzis, seus “sapatos de diamante”, etc etc. Já a segunda metade do livro alavanca a história com reviravoltas em cima de reviravoltas. Infelizmente, elas não conseguem salvar a história de um final abrupto, que perde completamente o tom quando tenta caber em mais algumas poucas páginas. E no fim temos 300 páginas de piração total e 10 páginas de algo realmente divertido.

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De pontos positivos levo o Michael, namorado/ noivo da Mia. Livro após livro e eu ainda me pergunto o que esse cara viu nela. Além do troféu “Não Sei Como Você Consegue”, ele merece outro por ser, em todos os onze livros, o personagem mais divertido ever. A nostalgia também é outro ponto positivo. É bem divertido saber o que aconteceu com os personagens oito anos depois, mas o livro não se prende muito a isso. Talvez apostar mais nesse ponto tivesse sido o segredo para melhorar a história.

É triste dizer, mas ‘O Casamento da Princesa’ não fez mais que tomar meu tempo (bem grande até, comecei a lê-lo em dezembro passado) e nem divertido foi. Pelo contrário, foi cansativo e não via a hora de terminar logo. Um livro dispensável, já que a história foi muito bem terminada no livro anterior, ‘Princesa Para Sempre’. Fiquei com a sensação de um livro feito meio às pressas, sem um propósito justificável. Um caso clássico de continuação que não deveria ter existido.

Crystal Ribeiro

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‘Annie Hall’ (1977)

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Traduzir o filme ‘Annie Hall’, do diretor Woody Allen, como ‘Noivo Neurótico, Noiva Nervosa’ poderia até ser chamado de heresia em diversas culturas. Estou bem certa disso. Woody Allen ficaria horrorizado se soubesse. Talvez até saiba. Reduzir esse filme a uma comédia romântica clichê de Sessão da Tarde (porque é isso que o título faz), é um erro absurdo. As escolhas de direção, as atuações e o roteiro certamente não são de um filme qualquer. Sem ‘Annie Hall’ as comédias românticas atuais não seriam a mesmas.

Quem conta a história é Alvy Singer (Woody Allen), um humorista judeu e divorciado que faz análise há quinze anos. Ele conhece Annie Hall (Diane Keaton), uma aspirante a cantora cheia de personalidade, em uma partida de tênis e eles logo se apaixonam um pelo outro. Durante os 93 minutos do filme, vemos um desenrolar de episódios do dia a dia do casal, com momentos de romance, risos e brigas. Não necessariamente nesta ordem, porque este é um filme não-linear, que vai e vem pelos acontecimentos. Ele também é narrado pelo próprio Alvy, que nos enche de piadas-metáfora sobre o relacionamento dos dois.

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Outra escolha improvável do diretor foi fazer os personagens, principalmente o Alvy que narra a história, poderem falar com o espectador, faze-lo observar o absurdo de uma cena, convidar outros personagens a voltar no tempo para analisar alguma coisa. Tudo isso é genial. Na melhor cena do filme, por exemplo, Alvy está com Annie na fila do cinema com um homem extremamente pedante (ou que Alvy considera pedante) atrás deles. Alvy começa a falar para o espectador como esse cara não sabe de absolutamente nada do que está falando, enquanto o próprio homem vem até ele e começa a se defender. A discussão termina quando Alvy traz o teórico de comunicação Marshall McLuhan em pessoa para dizer ao homem que ele realmente não sabia do que estava falando. A cena é absolutamente maravilhosa.

Uma das coisas que mais gosto sobre o Woody Allen é que ele não faz filmes dispensáveis. Por mais que se torça o nariz para algum filme da sua cinematografia (bem extensa já, com mais de 50 trabalhos), é inegável que seus roteiros são acima da média. E roteiros são 50% de qualquer bom filme. Allen consegue escrever diálogos perspicazes, irônicos, engraçados e que nunca caem no lugar comum. ‘Annie Hall’ é uma prova viva disso. É possível ser atraído pelo filme apenas por seus diálogos afiados e a história leve e fluida.

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Ainda falando no diretor, além de escrever o filme, ele também interpreta o Alvy. A escolha é bem acertada. Não sei por quê, mas sempre acho que Woody Allen é esse mesmo tipo de cara na vida real: culto e pedante ao mesmo tempo, alucinado por achar que sabe muito de muita coisa. Alvy por vezes chega a ser um personagem irritante. Para mim, foi difícil sentir alguma empatia por ele, além de “ok, mas cadê a Annie?”. Parece que ele está lá só para dar voz a tiradas sarcásticas (muito boas, por sinal) e servir de gancho para que a Diane Keaton apareça em cena. Aliás, Diane mereceu totalmente o Oscar que ganhou pelo papel. A Annie é a presença maior do filme, completamente doce, forte, singular, de olhar e gestos atrevidos.

Por sinal, pensando mais para frente, Annie Hall é uma mãe das “manic pixie dream girls“, aquelas garotas incríveis das comédias românticas, meio doidinhas, estranhas, atrapalhadas, que gostam de coisas diferentes e que deixam o carinha sempre de queixo caído. Por isso foi impossível não lembrar da Summer de ‘(500) Dias Com Ela’ (meu filme preferido da vida toda) enquanto assistia ‘Annie Hall’. Diga se de passagem, não fosse o Woody Allen, ‘(500) Dias Com Ela’ nunca teria essa inspiração tão forte, talvez até nem tivesse existido.

Pensando desse jeito, que bom que ‘Annie Hall’ existe. O começo de um manifesto pelas boas comédias românticas, à salvo dos clichês do gênero e ainda assim, divertida, singular, irônica e muito apaixonante.

Crystal Ribeiro

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Noivo Neurótico, Noiva Nervosa/ Annie Hall
Ano: 1977
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Atores: Diane Keaton, Woody Allen, Tony Roberts, Carol Kane, Paul Simon, Shelly Duvall, Janet Margolin, Christopher Walken, Colleen Dewhurst
Nota: 5 estrelinhas

Hoje, na minha playlist

Depois de uma semana de provas assustadora, estou de volta para falar um pouco sobre o que vem dando as caras na minha playlist de todos os dias. Eu adoro baixar discografias de bandas, sempre estou descobrindo alguma coisa nova. E geralmente, toda semana, eu mudo as discografias que andam pelo meu celular. Então vem conferir o que eu ando ouvindo pelos ônibus da vida:

Beirut

  1. Beirut

Beirut é a “banda que eu sempre volto”. Minha banda preferida desde que eu comecei a descobrir o mundo dos downloads. Apesar de não escutar literalmente todos os dias, Beirut é bom em todos os momentos, desde a manhã mais clara de sol, até a noite mais chuvosa. Me garante um sorriso involuntário qualquer que seja a música (inclusive nessa semana em que tudo parecia fora do lugar). O som da banda combina folk, música balcânica, alguns violinos e, claro, o ukelele. Um dos EPs também flerta com música eletrônica.

ÁLBUNS NA PLAYLIST:
Gulag Orkestar (2006)
The Flying Club Cup (2007)
The Rip Tide (2011)
EPs (Elephant Gun; Lon Gisland; Pompeii; March of Zapotec/ RealPeople Holland)

 

2. Blubell

Blubell é de São Paulo e canta jazz. É difícil achar músicas mais chiclete que as dela. Sua voz é suave, doce e interpreta muito bem desde Cole Porter até Madonna. Tive a oportunidade de assistir um show dela ano passado. Impecável. Muito simpática também. Seus projetos variam entre jazz, blues, algum rock, e sempre com muita personalidade.

ÁLBUNS NA PLAYLIST:
Slow Motion Ballet (2006)
Eu Sou do Tempo Em Que a Gente Se Telefonava (2011)
Blubell & Black Tie (2012)
Diva é a Mãe (2013)

 

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3. Copacabana Club

Mais uma das minhas descobertas, o Copacabana Club (que ao contrário do que diz o nome, é de Curitiba), faz um som bem dançante, indiepop, meio new wave, muito divertido. Perfeito para se ouvir no ônibus em uma sexta-feira. Eles já participaram do Lollapalooza em 2013 (mesmo ano em que a Blubell também passou por lá).

ÁLBUNS NA PLAYLIST:
Tropical Splash (2011)

Crystal Ribeiro