‘Os Crimes ABC’ (1936), de Agatha Christie

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Agatha Christie é a mestra do crime. Ela já escreveu mais de 100 obras, entre romances, contos e peças, que se tornaram clássicos absolutos da literatura mundial e referências no gênero. Sua escrita é bem simples e direta, mas a condução que ela dá aos seus casos são exemplares. A forma como ela apresenta os personagens (todos possíveis suspeitos) e depois como vai distribuindo as pistas e fazendo o leitor desconfiar de cada passo, cada evidência e sempre desviar a sua atenção do verdadeiro autor do crime é brilhante. Não sei se esse brilhantismo se sustenta por todos os seus livros, afinal não li nem 1/4 da sua obra, mas até agora, nos poucos que li, ela não decepcionou.

Eu conheci a história de Os Crimes ABC pela série francesa Os Pequenos Crimes de Agatha Christie (2009) que eu assistia pela TV Brasil. A série adaptava algumas dos romances da autora, mas trazendo a história para o universo do detetive Larosière e do seu ajudante Lampion, ambos criações da série, mas levemente inspirados em Hercule Poirot e Capitão Hastings, personagens originais da autora. A série é bem divertida, vale conferir no YouTube (primeiro episódio; demais episódios). Como fazia bastante tempo que eu tinha assistido o episódio em questão (Assassinatos em Série) nem me lembrava muito do que acontecia na história, o que foi ótimo já que eu não recebi spoilers sobre o assassino.

Em Os Crimes ABC, o detetive Hercule Poirot se vê à frente de mais um mistério: três pessoas são mortas em três cidades diferentes por uma curiosa figura de nome ABC. O problema é que as vítimas não parecem ser escolhidas aleatoriamente, já que o assassino avisa por meio de cartas o lugar e o dia em que o crime irá ocorrer e todas as vítimas tem a letra do sobrenome igual a do nome da cidade, sempre seguindo a ordem alfabética.

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O narrador da história é o Cap. Hastings, fiel escudeiro de Poirot no mundo das investigações. Em alguns capítulos é usada a narrativa em terceira pessoa, ou seja, é possível ver a história pelo olhar de outros personagens. Também figuram no enredo os parentes das vítimas mortas que são convocados por Poirot para tentar decifrar esse mistério. A peculiaridade do romance é desafiar o detetive, e consequentemente o leitor, a descobrir o que existe de comum entre todos esses assassinatos, tão diferentes entre si, mas que, aparentemente, foram cometidos pela mesma pessoa. Mas qual é o ponto comum a todos eles? Os assassinatos são realmente aleatórios? Será ABC o verdadeiro assassino? E se for, qual a motivação dele em matar essas três pessoas que não tem nada de especial?

O livro começa de forma usual com o detetive se deparando com um assassinato e entrevistando pessoas que podem ajudar a desvendar quem foi o autor. A narrativa engata realmente quando mais vítimas são mortas e você passa a desconfiar de tudo o que os personagens fazem. Os Crimes ABC me deixou com um gostinho de “quero mais”, porque sei que a Agatha consegue prender o leitor mais do que ela fez nesse livro. Em comparação à segunda metade do romance, o início não me deixou muito engajada, pareceu mais uma preparação para um grande ápice. Talvez isso explique porque eu demorei quase um mês para terminar a leitura, mesmo ela não sendo difícil. Apenas o começo que é um tanto quanto desinteressante. Mas é aquela velha história: pode não ter sido a melhor coisa do mundo, mas é superior ao que muitos escritores fazem por aí.

Já da segunda metade eu não posso reclamar: quando parece que todo o caso havia sido resolvido, ainda existiam peças fora do quebra-cabeça que precisavam ser organizadas e é aí que vem o grande plot twist. Poirot aqui usa do seu faro aguçado para ler as entrelinhas do mistério e ver além do que, por exemplo, o Cap. Hastings conseguia deduzir. O vilão do livro é a grande estrela, a grande sacada da autora, porque o mais importante não é tanto descobrir quem ele é, mas sim compreender suas motivações. Eu posso falar que desconfiei de todas as pessoas, até dos detetives, mas nunca esperei que fosse aquela pessoa. Ler Agatha Christie é sempre me questionar por quê eu sou tão lerda. Prefiro aceitar a hipótese de que ela é que é muito boa.

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Os Crimes ABC é um livro muito divertido. Se não envolve muito no começo, já consegue recompensar o leitor lá pelo meio. A autora constrói aos poucos aquela sensação de estar dentro de uma mansão em que uma pessoa foi assassinada na biblioteca e todos os presentes são suspeitos do crime. Para mim, essa é a melhor parte dos livros dela. Não foi meu preferido da Agatha até agora, mas não foi uma decepção. Além de divertir, ele me fez voltar a ter saudade de comprar livros dela. Para os amantes de romances policiais é uma ótima escolha, já que além do mistério ela nos presenteia com um pouco de suspense psicológico.

Crystal Ribeiro

Favoritos #4: Agosto

Favoritos atrasadíssimo, mas tudo bem. Agosto não poderia ter sido mais agosto: o mês mais sem graça do ano. Muita coisa legal aconteceu, mas nada comparado à dezembro, por exemplo. Consequentemente, foi difícil selecionar muitos Favoritos já que o marasmo geral do mês não trouxe aquela explosão de amores que é usual. Mas nem por isso esses Favoritos deixam de ser menos legais. Confere aí embaixo o que fez meu mês menos agosto.

  • The Moon Song – Karen O

Essa música faz parte da trilha de Ela (2013) do Spike Jonze, um dos meus filmes preferidos. Quem compôs foi a Karen O, vocalista da banda Yeah Yeah Yeahs, que já tinha sido chamada para fazer a trilha de Onde Vivem os Monstros, também do Spike Jonze e mais uma delícia de filme. A Karen tem uma voz suave maravilhosa que combinou demais com o romantismo que a música pedia. Os personagens do Joaquin Phoenix e da Scarlett Johansson também cantam a música em uma cena do filme e fica igualmente maravilhoso, já que a voz da Scarlett é a coisa mais doce que existe. Como não consigo decidir qual a melhor versão, coloquei esse vídeo com as duas. Detalhe legal: The Moon Song foi indicada ao Oscar de Melhor Canção Original.

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  • Ballet

Quando eu era pequena, fiz ballet por uns sete anos e eu amava, mas decidi parar porque eu não estava mais achando tão interessante. Só que desde o início do ano minha saudade do ballet foi crescendo. Meu coração ficava pequenininho de saudades toda vez que eu passava pela minha antiga academia. E quando uma das minha blogueiras queridinhas, a Renata Fukuda, começou a fazer as aulas pela primeira vez, eu não resisti. Eu só precisava encontrar um lugar que tivesse ballet para adultos, mas que não fosse profissional como na academia que eu fazia, já que eu queria fazer só pela diversão e pelo exercício.

Até que eu finalmente encontrei uma academia perto da minha casa e os horários das aulas batiam exatamente com as horas vagas da minha agenda. Na mesma semana eu fui à uma aula experimental e me matriculei. Foi definitivamente a melhor coisa que eu fiz no ano, fazia tempo que eu não sentia uma alegria igual a essa. São as duas horas que me fazem mais feliz na semana.

  • O Terno

Em uma das minhas playlists do mês fiz uma seleção com algumas bandas que eu não escutava há algum tempo e incluí O Terno, o power-trio de canção-rocknroll-pop-experimental de São Paulo, como eles se intitulam. Eu sou louca pelo primeiro CD deles, o 66, que tem as músicas mais divertidas e despretensiosas que eu já ouvi. Apesar disso, minha música deles preferida do mês foi Eu Confesso, do segundo CD. Coincidentemente, eles acabaram de anunciar o terceiro álbum, Melhor do Que Parece. Estou bem ansiosa.

  • A Mentira (2010), de Will Gluck

Sentei em frente à TV um dia desses e estava passando A Mentira (2010). E como manda a tradição, se é A Mentira, Zumbilândia (2010) ou As Patricinhas de Bervely Hills (1995) passando na TV, eu tenho que assistir. Figurinha carimbada na minha lista de Favoritos, a comédia conta a história da Olive (Emma Stone), uma garota comum que de uma hora para outra se torna famosa no colégio por acharem que ela não é mais virgem. Detalhe: tudo isso é mentira. O filme é livremente inspirado no romance A Letra Escarlate (1850), de Nathaniel Hawthorne, e é a coisa mais divertida que eu já assisti. Não existem palavras para explicar o quanto a Emma brilha nele, absolutamente engraçada e sarcástica. Como no livro, o longa funciona como uma crítica ao pensamento sexista e tradicional da sociedade em relação às mulheres. Destaque para o roteiro maravilhoso que tem os diálogos mais hilários.

  • Menção honrosa: Carried Away – The Kooks

Não consegui parar de cantar essa música por aí esse mês. Simplesmente amei.

Crystal Ribeiro