Novos na estante #1 (Livros)

Como mencionei neste post, tenho muitos livros acumulados e ainda não lidos na estante, fato que me deixa um tanto quanto angustiada e que me fez parar de comprar livros por um tempo. Mas como a vontade de ler coisas novas estava me deixando meio impaciente, me planejei para comprar alguns livros da wishlist este mês. Na realidade, essa lista cresceu, multiplicou, e eu precisei me controlar para não comprometer todo o dinheiro em livros, o que foi muito difícil. Por fim, escolhi os quatro mais desejados e comprei todos pela Estante Virtual, um site com cadastros de sebos de todo o Brasil. Escolhi apenas livros usados por conta do preço, mas no estado em que eles estavam pareciam todos novos. Poucas sensações são tão maravilhosas do que a de chegar um livro que você desejou por muito tempo na sua casa. Podia acontecer toda semana que eu não ia me importar. Mas enquanto não acontece, vem conferir as minhas escolhas:

fotor_1477569710934291

  • Reparação (2001), Ian McEwan

O primeiro que comecei a ler. É em livros como Reparação que eu encontro o meu tipo preferido de leitura: uma história do cotidiano, com acontecimentos simples e reflexivos, uma escrita charmosa que prende a atenção e um plot aparentemente banal, mas que dentro da história se torna extraordinário. Estou na metade do livro, em breve farei uma resenha muito emocionada. Quem já viu o filme inspirado nele (Desejo e Reparação, 2007) sabe o tamanho do choque e da angústia que vem no fim. Imagino que se eu o tivesse lido antes de ver o filme iria ficar ainda mais maravilhada, mas mesmo que pareça impossível, na minha opinião, a história fica ainda mais interessante desse jeito.

O livro se passa na Inglaterra dos anos 1930. A adolescente Briony Tallis, de imaginação bastante fértil, tem o desejo de se tornar escritora. Mas na tarde em que a história começa, ela vê uma cena que a atormentará por muito tempo: sua irmã mais velha, sob o olhar de um amigo de infância que trabalha na casa em que elas moram, tira o vestido e mergulha apenas de roupas íntimas na fonte do quintal. A partir desse episódio e de uma sucessão de mal entendidos, Briony constrói uma história fantasiosa sobre uma cena que presencia e assim, causa efeitos devastadores na vida de toda a família.

fotor_1477569399469571

  • Educação: O Roteiro (2009), Nick Hornby

Dedicado à Carey Mulligan, atriz que foi descoberta através desse filme, o livro não contém apenas o roteiro do longa, mas também alguns breves capítulos sobre a produção e as filmagens. Não tenho muito o que se falar sobre o roteiro de um filme, se compra quando se gosta da história. Aos poucos vou compondo uma coleção de roteiros maravilhosos.

Na história passada nos anos 1960, Jenny é uma adolescente de 16 anos que está insatisfeita com o rumo comum que sua vida irá tomar. Quando conhece David, um interessante homem mais velho, sua vida parece finalmente seguir na direção que gostaria que tomasse. Mas a partir daí ela começa a ter que tomar decisões e amadurecer antes do que era previsto.

  • Tudo Sobre Cinema (2011), Philip Kemp

Pensei que seria bom dar continuidade a minha coleção de livros sobre cinema e investi neste. Tudo Sobre Cinema é um apanhado, dividido em décadas, dos melhores e mais importantes filmes da história. É uma grande enciclopédia, na verdade, bem ilustrada, dando contexto histórico em que os filmes foram produzidos e ênfase a vários movimentos cinematográficos. É ótimo para os dias em que eu estiver sem ideia do que assistir, é só folheá-lo e encontrar alguma boa sugestão. Sem falar que, como percebi quando ele chegou, vai ficar lindo na estante.

fotor_1477569457181911

  • Não Me Abandone Jamais (2005), Kazuo Ishiguro

Oficialmente o livro mais lindo da estante. Nunca fui de ligar para as capas dos livros, hoje menos ainda, mas eu tenho que reconhecer que a capa metálica e a lombada preta de Não Me Abandone é maravilhosa. Os Correios se enrolaram para entregar, eu tive que ir buscar na agência perto da minha casa, mas finalmente está comigo! Sem dúvida o que eu esperava há mais tempo, estou muito ansiosa pela leitura.

Never Let Me Go no original, segue as memórias de Kathy H., 31 anos, que está prestes a encerrar suas atividades como cuidadora em um hospital. Durante o livro, ela relembra sua infância no orfanato Hailsham e sua amizade com Tommy e Ruth. Apesar de toda cautela que os cuidadores têm com as crianças e com o espaço de convivência delas, o orfanato esconde um segredo terrível que irá mudar o destino das crianças Hailsham.

Crystal Ribeiro

Favoritos #5: Setembro

Setembro foi um mês bem corrido. O mais atarefado do ano até agora. Se eu achava que o 4º período do curso tinha sido difícil, foi apenas porque o 5º não tinha chegado. O cansaço é grande, eu tenho dormido muito pouco e qualquer momento que aparece para relaxar nunca é o suficiente. Mas ninguém disse que seria fácil, né? Por isso que os posts do mês passado foram tão escassos. Em outubro as coisas vão se normalizar um pouco, mas daqui a pouco novembro tá aí e a loucura de fim de período volta a atacar. Apesar dos pesares, os favoritos foram bastante especiais. Vamos a eles:

fotor_147609925476151

  • O Retrato de Dorian Gray (1890), de Oscar Wilde

Definitivamente, este foi o maior favorito do mês. O Retrato de Dorian Gray é um livro reflexivo e instigante do qual eu não conseguia desviar os olhos. Todo o momento que eu conseguia parar e ler era uma alegria, podia estar no ônibus, no metrô ou na sala de aula que eu esquecia do mundo e me envolvia totalmente com a história. Para quem perdeu, fiz uma resenha bem legal sobre ele essa semana. Dá uma conferida:

“Wilde tem uma escrita muito elegante e requintada […] Apesar de ser um livro forte, o autor consegue trazer o enredo de forma mais sutil e reflexiva do que qualquer outra coisa. Sem dúvida esse foi o ponto que mais me encantou na leitura, o enredo discute a vaidade, o belo, o efêmero, critica a moral da sociedade da época trazendo questões como a vida dupla e o cinismo. […] todos os capítulos têm alguma coisa a discutir, me surpreendi porque essas divagações não me entediaram, só me fizeram amá-lo ainda mais.”

Além de ser um clássico da literatura inglesa e mundial, se tornou um dos clássicos da minha vida. Vale muito a pena ler.

  • Cigarette Daydreams – Cage The Elephant

Baixei toda a discografia do Cage The Elephant, mas ainda não tive tempo de escutar. Exceto Cigarette Daydreams, que não saiu da minha cabeça esse mês. E tem como não? É uma delícia de sair cantando e dançando por aí.

  • Brechós e o Little Black Dress

Um dos meus trabalhos da faculdade em setembro foi fazer uma matéria sobre um assunto da minha escolha. Depois de ler uma matéria na Revista Capitolina, tive a ideia de falar sobre brechós, um assunto que eu conheço basicamente, mas que sempre tive vontade de descobrir mais. Então saí pesquisando vários brechós daqui de Recife, onde eu moro, para visitar e fazer a matéria. No fim das contas, além de fazer meu trabalho, foi incrível descobrir tantos lugares legais para comprar roupas gastando muito menos do que se eu fosse ao shopping. Quero publicar a matéria aqui no Flamingos quando ela estiver finalizada, o que deve acontecer lá pelo fim de novembro.

Em uma dessas visitas, como proferiu Ines de La Fressange em A Parisiense, encontrei meu little black dress da vida em um cantinho escondido nas araras do brechó. Foi instantâneo: eu olhei para ele e soube na hora. Quando vesti me senti a própria Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo (1961), parada em frente à Tiffany’s. E custou apenas 20 reais. Melhor compra do ano até agora.

  • “Muito Mais Que o Amor” Ao Vivo – Vanguart

Já fazia um tempo que o Vanguart vinha postando no canal deles no YouTube vídeos com as músicas que fazem parte do setlist do novo DVD. A produção está muito mais bonita que a do último e finalmente é possível falar: “sim, o Vanguart tem um DVD”. No fim do mês o show começou a passar na programação do Canal Bis e não teve nada melhor que ligar a TV cedinho para assistir. Apesar ter sentido falta de Miss Universe, esse é o melhor apanhado de músicas deles, principalmente por ter as minhas preferidas do queridinho Boa Parte de Mim Vai Embora, o segundo CD.

aquarius
Imagem: Carta Capital
  • Aquarius (2016), de Kléber Mendonça Filho

Não teve como não ser Aquarius o filme do mês. Virou assunto em casa, na faculdade, na saída com os amigos, no curso, na padaria. Ao menos em Recife, não se falava em outra coisa senão nele. Quem ainda não teve oportunidade de assistir não perca mais tempo, é um filme importantíssimo para o momento do Brasil, tanto sua parte técnica, impecável, quanto seu conteúdo, que ainda reverbera por aí. Para conferir todas as minha impressões a respeito dele, não deixa de conferir a crítica aqui no blog.

Crystal Ribeiro

‘O Retrato de Dorian Gray’ (1890), de Oscar Wilde

fotor_147609887705991

“Curar a alma pelos sentidos e os sentidos por meio da alma…”

O Retrato de Dorian Gray (1890) é um caso clássico de livro que eu compro e que fica parado na minha estante por alguns anos até que eu me interesse em ler. Comprei ele há três anos, fiz duas tentativas de leitura e em nenhuma delas me engajei com a história, sempre parava no primeiro capítulo. Era um livro que eu sentia muita vontade de ler, mesmo não conhecendo muito da história, o pouco que eu sabia me deixava encantada. Mas só no mês passado, mesmo com infinitas coisas para fazer, que eu consegui engatar a leitura e devorar o livro. A sensação foi de que eu nunca havia tocado nele de tanto que adorei a escrita e o enredo. Como mágica, eu li todo o livro com um encanto que há muito tempo eu não sentia, a leitura fluía como se eu o estivesse lendo logo depois de ter comprado.

Para quem não conhece, O Retrato de Dorian Gray conta a história do ingênuo Dorian Gray, um adolescente dotado de uma beleza extraordinária e que ainda não conhece a maldade do mundo. Dorian conhece Basil Hallward, um pintor talentoso que decide fazer um retrato seu. No dia em que finaliza sua obra-prima, Basil recebe a visita do seu amigo Lord Harry Wotton, um homem cínico e hedonista que passa a vida aproveitando todos os pecados que pode cometer. Assim, Dorian conhece Harry e tudo o que Basil mais temia acontece: Harry acaba influenciando o jovem da pior maneira possível. No dia em que se conhecem, Harry atiça em Dorian o apreço pela sua enorme beleza, dizendo que a juventude é a única coisa almejada e relevante no mundo. Então vendo o seu retrato, Dorian lamenta o quão passageira ela é e diz que daria sua alma para que não ele, mas o quadro envelhecesse em seu lugar. Assim, Dorian, influenciado pelo novo amigo, começa a viver uma vida libertina e todos os seus pecados são refletidos no seu retrato, que passa a ficar cada dia mais desgastado enquanto ele se torna eterno.

fotor_147609902588865

Único romance de Oscar Wilde, um dos escritores mais aclamados da literatura inglesa, O Retrato de Dorian Gray causou estardalhaço na época em que foi lançado, já que trata de assuntos como homossexualidade e hedonismo, o que ofendeu a sensibilidade dos ingleses. Ele foi publicado primeiro em uma revista, onde sofreu censura, e depois foi revisado e ampliado pelo autor para ser lançado como livro. Originalmente, nele constam treze capítulos, mas como as editoras achavam que o conteúdo precisava ser modificado, Wilde diluiu a homossexualidade da trama em mais sete capítulos, além de cortar diversas frases ditas “amorais”. No Brasil, apenas uma editora, a Biblioteca Azul, publicou O Retrato na edição censurada e sem cortes. Descobri em alguns blogs que as diferenças não são extremamente grandes, não existe muita coisa explícita sobre o triângulo amoroso dos personagens em nenhuma das duas versões, mas implicitamente é possível saber o que Dorian vem fazendo.

“Sim, ele procuraria ser junto a Dorian Gray o que, sem saber, o adolescente era para o pintor, que lhe havia traçado o esplêndido retrato. Ele tentaria dominá-lo, como aliás, já havia feito. Faria seu esse ser maravilhoso. Havia qualquer coisa de fascinante nesse filho de Amor e Morte.”

É engraçado pois, em comparação a escritores como Kerouac e Bukowski, O Retrato parece extremamente erudito e nada escandaloso, mesmo que a minha seja a edição censurada. Foi interessante notar essa diferença de pensamento entre a cultura e os costumes do século XIX e agora do século XXI enquanto eu lia. Wilde tem uma escrita muito elegante e requintada, ele vai construindo os pecados de Dorian de forma implícita, por meio das falas dos personagens. Apesar de ser um livro forte, o autor consegue trazer o enredo de forma mais sutil e reflexiva do que qualquer outra coisa. Sem dúvida esse foi o ponto que mais me encantou na leitura, o enredo discute a vaidade, o belo, o efêmero, critica a moral da sociedade da época trazendo questões como a vida dupla e o cinismo. De todos os livros que já li, esse foi o mais que teve marcações de frases que eu gostei. O autor não para, todos os capítulos têm alguma coisa a discutir, me surpreendi porque essas divagações não me entediaram, só me fizeram amá-lo ainda mais.

fotor_147609917933812

O personagem que faz emergir essas questões é o Lord Harry. Ele é o estopim para o começo da “vida adulta” de Dorian, quem o apresenta à luxúria, aos prazeres mundanos e à hiper valorização dos sentidos, onde tudo precisa ser experimentado para que a passagem pelo mundo valha a pena. Em muitas análises, Harry é aludido ao demônio, pois é ele quem tenta o jovem para o pecado. Aos cuidados de Basil, Dorian era puro de alma. Depois que conhece Harry, ele se encanta por uma vida que ainda não conhecia e termina escolhendo por ela, chegando ao ponto de vender sua alma para que possa aproveitar as experiências da melhor forma e, externamente, ter sempre a mesma imagem imaculada. O interessante é ver como Lord Harry enxerga esse poder que tem sobre o jovem. Ele acha extremamente fascinante, como se estivesse realizando um estudo, o fato de que suas palavras exercem uma grande influência em Dorian. Seu cinismo é tão absurdo que chega a fascinar.

Sobre o retrato, é quase um martírio ler e não poder ver como a pintura evolui ao longo da história. A descrição de Wilde é misteriosa, não inteiramente descritiva, mas que ainda assim desperta a repulsa. É uma grande sacada fazer o leitor pensar em como estaria o seu próprio retrato se este fosse Dorian Gray e tivesse o poder de ver sua alma. Foi por causa desse visual, de saber como as pessoas interpretaram o retrato, que procurei assistir os filmes inspirados no livro. Até agora só consegui ver um dos mais famosos, a adaptação de 2011, estrelada pelo Ben Barnes. É um daqueles filmes apressados, onde o começo mostra tantos acontecimentos que o espectador não consegue desenvolver uma empatia pelo filme. O final foi completamente modificado, o que me deixou bem decepcionada porque, como eu vinha esperando, o livro se encerra de forma absolutamente incrível. É um filme regular, o ponto positivo é ter o Colin Firth como Lord Harry.

fotor_147609913400849

“Mas, o retrato?… Que dizer daquilo? Ele possuía o segredo de sua vida; havia-lhe ensinado a amar sua própria beleza. Ensinar-lhe-ia a odiar a própria alma? Deveria contemplá-lo ainda?”

O Retrato de Dorian Gray foi tão especial como leitura para mim que me lembrou a experiência de ler On The Road (1957), do Jack Kerouac. A sensação de prazer e diversão foi a mesma, os dois autores são igualmente brilhantes. As reflexões de Oscar Wilde sobre o mundo foram absolutamente diferentes de tudo o que eu já li, mas também me fizeram colocar o livro entre os meus preferidos. Não é uma leitura exatamente fácil, ele devaneia bastante (cheguei a pular um capítulo no meio do livro por ser muito entediante), mas no todo é uma obra divertida, reflexiva e que realmente fascina o leitor. Espero comprar a versão original um dia e ter mais uma vez a incrível experiência de ler O Retrato de Dorian Gray.

Crystal Ribeiro