Minha dificuldade em aceitar mudanças

As coisas mudam. Sejam elas metas, paradigmas, sonhos, objetivos. Nada é permanente, nem vai ser para sempre estático e imutável. A gente simplesmente muda de opinião ou de roupa, de batom ou de prioridade. E está tudo bem, não é preciso ter medo e entrar em pânico.

Entender isso, para mim, sempre foi muito complicado. Desde pequena eu ficava muito chateada se os planos mudavam, se as coisas que eu determinei para mim não davam certo e eu precisava de um plano b. Metódica como eu sou, imaginar ter que sair daquele meu esquema já bem fundamentado e detalhado era ao mesmo tempo frustrante, pois, aparentemente, indicava que eu tinha falhado com o primeiro; e motivo de desespero, porque eu nunca me acostumei realmente a encarar as alternativas como coisas boas e bem-vindas.

Sem dúvida, passei inúmeras vezes por esse tipo de situação esse ano, então é possível imaginar meu pânico a cada vez que acontecia. Eu tive que aprender aqueles conceitos do primeiro parágrafo bem na marra. Não que eu tenha aprendido totalmente, é tudo um processo longo e demorado, e muito, muito difícil. Nunca pensei que pudesse ser tão difícil ver as coisas seguirem rumos diferentes.

E o pior é que vai desde coisas simples como mudar as metas de leitura do ano até as mais complexas como repensar o rumo que eu quero dar para minha carreira. Claro que as mais simples são bem melhores de se assimilar, mas é a partir delas que vou conseguir maiores resultados com as maiores.

Simplesmente aceitar. É isso que é preciso ser feito. Que eu faça. Aceitar que as coisas mudam e que não é o fim do mundo. Meus planos não seriam os mesmos para sempre, eu deveria saber. É assustador ter que entender que, às vezes, tudo o que você precisa é repensar aquilo que você tinha programado e que isso não é motivo para perder a cabeça. Muitas vezes, como eu venho aprendendo, é divertido imaginar alternativas, é um mundo totalmente novo em aberto. Desafiador sim, mas não mais do que a vida em si já é.

Geralmente, se as coisas mudam, no final das contas, mudam para melhor. E é nisso que eu procuro me prender agora, tento esquecer as pressões e cobranças e inseguranças e vou. Simplesmente mudo.

Crystal Ribeiro

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Sobre pressão, futuro e autoconhecimento

Tem tantas coisas que eu gostaria de falar nesse post. Quantas vezes fiquei em frente ao teclado pensando nas palavras certas para colocar aqui e não conseguia me decidir. Tem tanta coisa acontecendo, minha cabeça anda tão louca nos últimos meses que é difícil expressar em palavras o que se passa nela. Eu queria falar como, durante esse tempo, estou sentindo uma parte da minha vida perder o controle diante dos meus olhos. Queria dizer o quanto estou duvidando do meu investimento, por vezes integral, nessa parte, e o quanto sinto que esse investimento está se virando contra mim hoje. Queria dizer o quanto perder o controle me apavora, que o futuro nunca esteve tão indefinido e que isso me pressiona de um jeito maior do que eu gostaria.

Meu momento é confuso, estou tendo que encarar vários medos que me davam arrepios só de pensar que poderiam, algum dia, vir na minha direção. Eu queria ser capaz de enfrentar isso melhor do que estou fazendo, queria ser forte o suficiente para contornar essa sensação de querer que tudo volte a ficar sob o controle das minhas mãos. Porque a vida não é assim. Por mais que me doa e me apavore, o futuro, agora mais do que nunca, é uma caixinha de surpresas. Ter que tomar decisões fora do roteiro de uma hora para outra e realmente começar a viver sem a certeza do próximo passo a dar é aterrorizante.

Eu gostaria de não fazer nada, não ter que enfrentar toda essa incerteza que me acometeu de uma hora para outra. “O tempo passa, a vida corre”, eu ouvi durante toda a minha vida. Viva intensamente, não deixe para depois, corra agora atrás do que você quer, o sucesso começa com decisões tomadas hoje, você não vai querer ficar para trás. Essas afirmativas que tanto faziam sentido para mim antes, hoje me entediam, me pressionam, me fazem ter ainda mais vontade de parar. E porque não parar? Me parece que ter vinte anos é ter liberdade e ao mesmo tempo viver presa a essas “verdades absolutas” que o mundo me dita desde nova.

E eu só tenho vinte anos. Será que preciso mesmo pensar nisso 24 horas do meu dia? Será que não estive fazendo isso o tempo todo?

Falei nesse primeiro post do ano que tinha começado a me sentir ansiosa sobre as coisas, mas que estava conseguindo controlar isso. Naquela época talvez eu conseguisse. Hoje eu sinto que não tenho mais esse controle. Por várias vezes senti que não poderia aguentar, que iria explodir com tudo o que todos me diziam, com o que pensavam sobre mim, com o que me mandavam fazer e ser. Foi então que ligar o piloto automático me pareceu a escolha natural a ser feita. Pelo menos no que dizia respeito ao jornalismo, ao meu trabalho e ao meu futuro.

Não posso deixar de agradecer por todas as coisas maravilhosas que me aconteceram esse ano, porque elas aconteceram e eu sou imensamente grata por todos os momentos de tanta alegria que tive. Mas não posso ignorar essa outra parte do meu mundo que deu uma guinada brusca numa direção que eu não esperava, e essa parte sempre foi o meu tudo, a base para minhas maiores realizações e onde eu colocava todas as minhas expectativas.

E não ter mais essas expectativas específicas, não saber como as coisas vão ficar daqui para frente é o que tanto me fez estagnar nesse semestre. Sei que não é um sentimento fora do comum, acredito que muita gente já passou ou ainda vai passar por uma coisa parecida. Mas eu fui pega totalmente de surpresa, não estava preparada para me questionar e para, de forma tão abrupta e inconsciente, duvidar de que eu seria capaz de alcançar o que eu me propus a ser. Para mim, uma perfeccionista com tendências workaholics, isso é como um pesadelo.

Minha sorte é que tenho toda a outra parte da minha vida, repleta de raios de sol, que me faz dar um tempo nas pressões que eu mesma me imponho, espairecer meus pensamentos e pensar mais claramente sobre as coisas. Tento também recuperar os momentos que tenho a sós comigo, que me fazem tão bem, porque ultimamente eles têm sido bem poucos. Sinto que preciso me reconectar comigo, pensar sobre meus novos objetivos e sonhos e tentar tirar o melhor proveito dessa nova pessoa que estou descobrindo ser.

Talvez eu precise mais desse tempo do que eu imagino, talvez isso não resolva meus problemas, mas de qualquer jeito vou ter aquela sensação de que estou fazendo alguma coisa para me ajudar e não negando ou ignorando essa minha fase. E acho que isso é que é o mais importante.

Crystal Ribeiro

Diário de leitura – Machado de Assis: A Mão e a Luva (1874)

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Um dos projetos em que estou mais me empenhando em 2017 é o de ler mais. Depois de ter retomado (e muito) meu ritmo de leitura no fim do ano passado decidi que a coisa não podia parar, meu objetivo é estar sempre com um livro à mão, qualquer um, desde que fosse alguma coisa que deixasse meu dia mais colorido, animado, intelectual ou o que fosse. Afinal, consumir cultura é um dos principais objetivos da minha vida, não existe nada melhor do que viver constantemente aprendendo e se renovando de formas tão deliciosas quanto as que a cultura nos proporciona.

Então, depois de Mansfield Park e leves doses de José de Alencar, decidi parar de postergar a leitura da obra completa de Machado, já acumulando poeira na estante de tanto tempo que ela está comigo. Fora Memorial de Aires, sua última obra, tenho todos os romances do autor, além de um bom número de contos seus, que são maravilhas a parte. Foi através de Machado (como eu falei um pouco nesse post) que comecei a me interessar por um tipo mais “adulto” de literatura, seus livros me mostraram uma outra forma de escrita e de colocação de ideias que eu não estava acostumada a ler e pela qual eu me apaixonei.

Depois de Dom Casmurro, fiquei decidida a ter cada um de seus romances, mas desses li apenas os mais famosos: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e, claro, Dom Casmurro. Foi então que disse para mim mesma: “Desse ano não passa!”. Começa agora meu Diário de leitura de Machado de Assis, que é nada menos do que uma série de resenhas de seus livros a medida que eu os for lendo.

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Sim, comprei num sebo em 2012 e só li agora em 2017
Ao contrário do que eu achava, Machado nem sempre foi um autor realista. Aprendi nas aulas de literatura que antes de ser famoso pelo realismo elegante de suas obras, ele seguiu os passos de José de Alencar e escreveu quatro romances tidos como românticos, que era o movimento que estava em alta na época. O segundo deles, A Mão e a Luva, mais parece um conto do que um romance de tão curtinho que é. Uma historinha simples que dá para ler de uma tacada só, um autêntico exemplar da literatura romântica. No livro, a protagonista Guiomar se vê dividida entre a preferência de três homens completamente diferentes e dos quais precisa escolher um para se tornar seu marido.

O enredo não parece muito interessante à primeira vista e sinto informar que à segunda também não. A simplicidade narrativa do romance pode decepcionar bastante, já que ele não é bem um romance. O número de personagens e acontecimentos é bem limitado, a impressão que eu tive é de estar lendo um livro como A Moreninha, outra obra do romantismo, que é tão curto que parece se desenvolver em apenas um dia. Eu, que esperava um romance tradicional, me decepcionei bastante com o formato de A Mão e a Luva, que também não foi feliz no desenvolvimento da empatia por seus personagens.

Guiomar, não há dúvidas, é uma personagem bastante revolucionária para sua época. É uma protagonista que, apesar de ter o casamento como objetivo, não está disposta a aceitar uma história de amor tradicional, ela é ambiciosa e sabe bem o que quer. Embora as coisas aconteçam dessa forma, o que é um grande diferencial na narrativa de Machado em comparação com outros escritores da época, não bastou (pelo menos para mim) para desenvolver uma afinidade pela personagem. Mesmo que seus defeitos a façam mais real, não consegui gostar dela, sempre muito irritante e cheia de si. Estou até hoje tentando entender que encantos ela tem para ter atraído tanta gente.

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Seus pretendentes também não ficam muito atrás. Estevão, o romântico incorrigível, é tão cego de amor pela protagonista que não consegue entender o quão ridículo está parecendo. Jorge é outro vazio de empatia. Ele espera que o simples fato de ser sobrinho da baronesa que cria Guiomar o faça ser o escolhido. Além de ser um herdeiro preguiçoso, suas atitudes são extremamente covardes para ganhar a atenção de alguém. Luís Alves é o que ganha mais destaque entre os três. Sua personalidade se destaca por ser um meio termo entre o apaixonado e o sem interesse. Ele é perspicaz e ambicioso, o que o torna menos caricato do que seus concorrentes.

Como dá para ver, os tipos do romance são um tanto convencionais e a trama chega a ser bem previsível. Mas se tivesse que destacar qualidades em A Mão e a Luva, quais seriam elas?

Bom, para quem, assim como eu, se interessa em ler a obra completa de Machado, saiba que este romance conta mais como um estudo de autor do que como um entretenimento de verdade. Aqui o escritor está mais preocupado em fazer algo nos moldes do romantismo do que propriamente desenvolver uma trama interessante. Pelo menos essa é a impressão que ficou para mim. Definitivamente, a melhor coisa no livro é sua escrita. Mesmo em início de carreira e escrevendo um romance que não combina com a sua veia irônica, Machado consegue escrever com a leveza e destreza que facilmente se observa em seus livros mais aclamados. Existe aqui uma pitada de ironia e originalidade próprios do escritor, coisa que, mesmo estando lendo algo do romantismo, já torna a narrativa mais viva e interessante e muito menos melosa e “bonitinha”.

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Não dá para negar que o Machado romântico não chega aos pés do realista, apesar que, confesso, o suspensezinho que o escritor inseriu no fim da obra me pegou de surpresa e ganhou alguns pontos. Claro que se você gosta de autores brasileiros românticos como José de Alencar (Senhora, Iracema), Joaquim Manuel de Macedo (A Moreninha) e Bernardo Guimarães (A Escrava Isaura) pode facilmente se interessar por A Mão e a Luva. Eu, que sou eternamente devota ao realismo, não consigo achar muita graça em livros como esse. Mas no fim das contas, bom mesmo foi saber que, até romântico, ele consegue ser Machado de Assis.

Crystal Ribeiro